Ler
a Bíblia no Brasil Hoje
Airton José da Silca
Fato incontestável
é a redescoberta da Bíblia e o seu uso constante por todas
as igrejas cristãs no Brasil, hoje. Este artigo quer refletir sobre
algumas das muitas leituras feitas nos últimos anos. Um levantamento
completo abrangeria muito mais. As limitações de quem escreve
impõem, contudo, restrições objetivas e necessárias.
Um texto mais amplo do mesmo autor, com o título de Notas sobre
alguns aspectos da leitura da Bíblia no Brasil hoje, pode ser lido
na REB 50 (março de 1990), Petrópolis, Vozes, pp. 117-137.
O assunto se dispõe em três
partes - descrição, análise e perspectivas -, procurando
responder, deste modo, a três questões:
· como se lê
a Bíblia hoje?
· por que se
lê a Bíblia hoje?
· para que se lê
a Bíblia hoje?
1. Como se Lê a Bíblia Hoje?
1.1. A Descoberta da Bíblia no Brasil
A presença da Bíblia no Brasil, nos meios católicos,
começa a ser mais significativa a partir da década de 40.
Por detrás disso há um fato dos mais importantes. Refiro-me
à encíclica de Pio XII, Divino Afflante Spiritu, de 30 de
setembro de 1943. Foi esta encíclica que permitiu a entrada, na
Igreja, da moderna pesquisa exegética, superando séculos
de desconfiança no uso da Bíblia.
Perfeitamente afinado com este momento
histórico foi, entre nós, Frei João José Pedreira
de Castro, exegeta franciscano, formado em Ciências Bíblicas
em 1924. Um dos pioneiros na difusão da leitura e do estudo da
Bíblia no Brasil.
Marco fundamental, naqueles tempos, foi
a fundação da Liga de Estudos Bíblicos, a LEB, na
I Semana Bíblica Nacional, realizada em São Paulo. A LEB
reunia os exegetas católicos em amplos debates e estudos, pela
primeira vez no Brasil, além de promover a divulgação
da Bíblia junto à população.
1.2. À Procura
do Melhor Texto
Uma das questões enfrentadas pelos católicos era a dificuldade
de acesso ao texto bíblico em português. A grande maioria
da população só conhecia as simplificadas - e, com
freqüência, simplistas - “Histórias Sagradas” do catecismo
e os selecionados trechos lidos nas missas e (mal) comentados pelos padres.
Hoje, surpreende a variedade de Bíblias oferecidas
pelas editoras católicas à população brasileira.
Estas são as principais “traduções de traduções”,
embora freqüentemente cotejadas com os originais:
· A Bíblia Sagrada traduzida do latim pelo Pe. Matos Soares,
Lisboa 1932.
· A Bíblia da Ave Maria, traduzida do francês
e publicada pela Editora Ave Maria em 1957.
· A Bíblia do Pontifício Instituto
Bíblico de Roma, traduzida do italiano e publicada pela Paulus
em 1967.
· A Tradução Ecumênica da Bíblia
(TEB) é baseada na conceituada TOB francesa, trabalho ecumênico
da maior importância, publicada pela Loyola em 1994.
· Bíblia do Peregrino, de Luís Alonso
Schökel, traduzida do espanhol, e que se caracteriza pela tradução
idiomática e abundância de notas, publicada, em edição
completa, pela Paulus em novembro de 2002.
De maior interesse são as traduções
feitas a partir dos textos originais hebraico e grego, em geral acompanhadas
de úteis introduções e notas explicativas. Destacam-se:
· A Bíblia de Jerusalém, traduzida
por uma equipe de exegetas brasileiros e publicada pela Paulus em 1981.
Nova edição, inteiramente revista e ampliada, com novas
opções textuais e notas atualizadas, foi lançada
em 2002, com o título de Bíblia de Jerusalém - Edição
Revisada.
· A Bíblia da Vozes, traduzida por um grupo
de exegetas católicos brasileiros, editada pela Vozes em 1982.
· A Bíblia Santuário, publicada pela
Editora Santuário em 1982.
· A Bíblia Mensagem de Deus, publicada pela
Loyola em 1983.
· Bíblia Sagrada, Edição Pastoral,
que se caracteriza pela linguagem acessível e por interessantes
notas explicativas, foi publicada pela Paulus em 1990. Uma edição
online está disponível na Internet.
· Bíblia Sagrada, tradução oficial da CNBB,
publicada, em 2001, por diversas editoras, e em 2006 já na terceira
edição, publicada pela própria CNBB.
Outra questão que deve ser abordada é a
do nível de compreensão, pelo povo, das várias traduções
existentes e a diferença entre leitura e audição
do texto.
Remeto tal discussão para um interessante artigo
de Alberto Antoniazzi, no qual se avaliam os resultados de duas pesquisas,
feitas em 1981, sobre o tema, uma em Ribeirão Preto e outra em
Belo Horizonte[1].
O que preocupava os pesquisadores era:
· Uma tradução da Bíblia pode
ser mais acessível ao povo que outras?
· Há diferenças na compreensão
do texto bíblico lido e do texto bíblico ouvido?
· Se há dificuldades na compreensão,
onde estão e como superá-las?
Duas conclusões (provisórias) são
interessantes:
· É urgente uma tradução acessível
da Bíblia, já que o nível de compreensão da
Bíblia pelo povo é baixo.
· É preciso ter cuidado nesta questão
da compreensão, pois, às vezes, tomam-se as opiniões
dos padres pela manifestação do povo. Nem sempre o texto
que o padre ou o agente de pastoral consideram ser mais acessível
ao povo o é de fato.
1.3. A Mediação
Hermenêutica Necessária
Gostaria de caracterizar agora a leitura da Bíblia feita nos cursos
de Teologia, ou melhor, em alguns dos mais bem estruturados cursos de
Teologia do país.
O papel da S. Escritura, em vários currículos
teológicos, tem sido o de fundamento ou fonte inspiradora da reflexão
teológica. Então o dado básico da fé é
mediado hermeneuticamente pelos textos bíblicos, levando-se em
conta quatro elementos na leitura: o texto e seu contexto, de um lado;
nós e o nosso contexto, de outro lado. É estabelecida assim
a seguinte correlação: o texto está para o seu contexto,
assim como nós estamos para o nosso contexto. Deste modo, a identidade
do sentido não é procurada no contexto ou na mensagem, mas
na relação entre contexto e mensagem.
Quando o exegeta aborda o texto, ele o submete a uma verdadeira
bateria de questões, do tipo:
· como conseguir uma reconstrução
do texto a mais próxima possível do original?
· qual é a proveniência do texto,
quem é o seu autor, quais são as suas características
literárias, seu contexto histórico-cultural?
· qual é o gênero literário
do texto analisado, as formas fixas do discurso utilizado, mesmo na sua
fase de transmissão oral, qual o seu contexto social e a intenção
de sua linguagem específica?
· como o autor trabalhou teologicamente o material
recebido da tradição, dando-lhe a forma atual?
· como foi o desenvolvimento progressivo da tradição
desde as camadas pré-literárias até a sua elaboração
por escrito?
Mesmo assim, nem tudo pode ser respondido aí, porque
ainda restam as questões do nosso lado:
a) Para que ler o texto?
Trabalha-se aqui com o problema da finalidade que é
a de iluminar a caminhada da comunidade cristã, na busca de uma
transformação de estruturas desumanas e anticristãs.
b) Com quem ler o texto?
É a questão do interlocutor, o homem latino-americano
empobrecido e excluído.
c) Como ler o texto?
É a articulação Bíblia-Realidade
que se pensa aqui: o modo concreto dessa articulação, os
obstáculos que se apresentam e as possibilidades de tal articulação.
Como se vê, são os vários recursos
da leitura histórico-crítica os mais utilizados. Somados,
hoje, é claro, a fecundas contribuições da lingüística
e a um interessante retorno das questões sócio-antropológicas.
1.4. Ler a
Vida com a Ajuda da Bíblia
De todos os usos recentes da Bíblia entre nós, o que mais
chama a atenção é a leitura popular feita pelas CEBs.
Quem melhor traduz a dimensão da leitura popular
da Bíblia é Carlos Mesters, quando afirma: “A preocupação
principal do povo não é interpretar a Bíblia, mas
é interpretar a vida com a ajuda da Bíblia”[2].
Ou ainda: “Estimulado pelos problemas da realidade (pré-texto),
o povo busca uma luz na Bíblia (texto), que é lida e aprofundada
dentro da comunidade (con-texto). O pré-texto e o con-texto determinam
o ‘lugar’ de onde se lê e interpreta o texto”[3].
Há quatro elementos que, segundo Carlos Mesters,
caracterizam a leitura popular da Bíblia:
· para o povo, a Bíblia vai além
do texto: é Palavra de Deus viva e atual
· o povo recupera a dimensão comunitária
e eclesial na leitura e aplicação da Bíblia
· o povo reapropria-se da Bíblia, mistura
com a vida e começa a despertar para uma consciência crítica
· para o povo a Bíblia não é
só história, é espelho da vida. O povo não
pergunta primeiro pelo fato (aconteceu mesmo?), mas pelo símbolo
(o que significa?)[4].
Falar de leitura popular, hoje, é falar também
do CEBI, Centro de Estudos Bíblicos, que nasceu em 1978, “a partir
da necessidade bem concreta, sentida por muita gente havia vários
anos, de se articular um serviço que ajudasse o povo das Comunidades
Eclesiais de Base no uso e na interpretação da Bíblia”[5].
Idealizado por Carlos Mesters, o CEBI é um organismo ecumênico
espalhado por todo o país.
2. Por Que se Lê
a Bíblia?
2.1. A Opção
pelos Pobres
Esta não é uma questão tão fácil de
ser respondida. Há certamente uma série de razões,
uma convergência de múltiplos fatores que levaram à
redescoberta da Bíblia entre nós nos últimos anos.
Claro está que o processo de reforma eclesial,
que desembocou no Vaticano II e em Medellín, conta muito. A conseqüente
renovação dos estudos teológicos, o novo espaço
conquistado pela Bíblia na liturgia, na catequese e na pastoral,
em geral, é extremamente significativo. Pouco a pouco a Bíblia
deixa de ser “coisa de protestante”, preconceito bastante difundido entre
os católicos, para ser, de novo, o livro da Igreja, de todas as
igrejas cristãs.
Mas creio que a análise das causas do crescente
uso da Bíblia pela população brasileira passa pela
análise das características da Igreja nos últimos
30 anos e, sem dúvida, pelo papel e caminhos das CEBs.
É preciso lembrar, em primeiro lugar, que as CEBs
nascem no contexto da ditadura militar instalada no país a partir
de 1964. E exatamente aí está uma das suas razões:
fechados os outros canais de organização e mobilização,
restou, às classes populares, a Igreja, como último espaço
social possível.
Se a Igreja sempre se vinculou, antes de 1964, ao sistema
dominante, a partir de então ela passa à defesa dos direitos
civis e das liberdades individuais. Ela passa a exercer, ao nível
nacional, o papel de instituição mediadora entre as transformações
sócio-culturais e suas eventuais projeções no sistema
político.
Aqui entra a Bíblia com toda a sua força:
“Os círculos bíblicos propiciaram a relação
entre os fatos da vida e os fatos da Bíblia, reduzindo a dicotomia
fé e vida, religião e política, Igreja e mundo”[6].
O método ver-julgar-agir possibilitou, por outro
lado, a articulação entre comunidades cristãs e organizações
de base, soando hegemônica, durante certo tempo, a voz profética
da Igreja comprometida com as classes populares.
Entretanto, a volta aos textos fundadores - em nosso caso,
à Bíblia - costuma acontecer, nas grandes religiões,
nas crises de hegemonia que a instituição tem ou julga ter.
É reativada assim sua consciência profética, na busca
de uma identidade ameaçada pelas mudanças sociais e políticas.
Só que a identidade religiosa não se define nem em si mesma,
nem na relação direta religião-sociedade. Mas na
disputa de posições hegemônicas ou na subsistência
social de seus agentes em um campo de trocas simbólicas. “Identidades
são estratégias simbólicas de lidar com o poder através
da diferença”[7].
É por esta via que a Bíblia ajuda o povo
- pela semelhança de situações entre o Israel antigo
e o Brasil atual - a criar uma identidade, enquanto ele se vê como
povo oprimido e fiel a Deus. Identidade que é estratégia
simbólica na luta contra o poder dominador através da diferença:
também o dominador é católico, exigindo do dominado
a criação de uma leitura da Bíblia diferente da tradicional
leitura do catolicismo oficial.
O oprimido procura na Bíblia uma linguagem para
dizer sua luta. É que a linguagem do capital (atualmente de clara
tendência neoliberal) predomina nos meios de comunicação,
na história oficial, na escola, nas religiões tradicionais...
Os discursos oficiais do Estado (e das igrejas) não traduzem a
realidade popular. Daí a redescoberta da Bíblia como o discurso
do povo, amparado pela legitimidade do sagrado, por isso, sempre vista
como Palavra de Deus. Eis por que, em tal leitura, a Bíblia não
é a fala de Israel com a sua época, mas a mensagem de Deus
para o homem de hoje[8].
2.2. A Opção pela Classe
Média
Convém entretanto lembrar que não é apenas nas CEBs
que a Bíblia é usada. Ela é redescoberta também
pelas classes médias, através de movimentos transnacionais,
que impressionam por seu crescimento e persistência.
Defendendo a formação de uma neocristandade,
os movimentos possuem uma estratégia bem precisa: influenciar a
sociedade não mais via Estado (atualmente falido), mas via sociedade
civil, ressocializando (convertendo) os cristãos num meio pluralista.
Os movimentos visam formar o cristão leigo ativo, em oposição
ao cristão tradicional, que só é cristão porque
nasceu assim.
Embora tenham origens e estruturas diferenciadas, os movimentos
possuem características comuns, tais como: são predominantemente
de classe média, defendem a família como fundamento da estrutura
social, posicionam-se contra os movimentos populares, a opção
pelos pobres e a Teologia da Libertação, olham o homem exclusivamente
a partir de sua subjetividade, opõem-se ao engajamento social e
político do clero, restringindo sua missão à função
religiosa...
Luiz Roberto Benedetti assinala que o papel do leigo nos
movimentos - positivo, ativo e não pura negação em
relação ao sacerdote - leva a novo clericalismo, enquanto
produz a sacralização do cotidiano profano. O leigo, profissionalmente
competente, cuida do mundo, enquanto o padre deve restringir-se à
ação religiosa tradicional[9].
A meu ver, a leitura da Bíblia, nos movimentos,
deve ser compreendida neste contexto: ela serve como ferramenta eficaz
para operar este processo de sacralização do real. Que não
é real objetivo, é significado, é subjetivo.
Este processo de subjetivização chega a
extremos, por exemplo, na Renovação Carismática Católica.
Para a RCC, crer é sentir, já que a ação imediata
de Deus, percebida pela vivência intensa da emoção,
do entusiasmo, constitui a realidade total, a história objetiva.
Entusiasmo vem do grego enthousiasmós, indicando o arrebatamento,
o transe daqueles que estavam sob inspiração divina, como
as sibilas.
É aí que entra a Bíblia: ela testemunha
a autenticidade do sentimento do indivíduo. É uma leitura
fundamentalista radical. “Radical porque vai além da aceitação,
como dado objetivo, da narrativa bíblica, para assumir como única
realidade os fatos de agora, sentidos como intervenção atual
de Deus. É o mesmo fato: o bíblico e o de hoje. Não
é nenhuma analogia”[10]. Daí a recriação de
vivências primitivas, literalmente.
O resto é o óbvio: eliminadas as fronteiras
entre o objetivo e o subjetivo, o mundo é reduzido ao coração
do homem, onde Deus age através de seu Espírito. Para além
do discurso moralista, esta subjetivização radical permite
a sacralização até do dinheiro, que sustenta a sólida
organização do movimento.
Termino com Benedetti, que afirma: “A grande aceitação
que os encontros têm junto à classe média tem muito
a ver com a sua insegurança e, sobretudo, seu ressentimento, disfarçado
como indignação moral. Esse mecanismo social serve também
para a classe média desobrigar-se de um compromisso social efetivo,
reduzindo os problemas do mundo a problemas morais”[11].
3.
Para Que se Lê a Bíblia?
É o momento de apontar alguns desafios que o uso da Bíblia
propõe. Parece haver duas tendências, hoje: uma, que faz
da leitura bíblica um instrumento para incentivar a organização
popular, mas não pára na Bíblia e sim desemboca na
vida; outra que produz uma reificação da Bíblia,
conduzindo a uma espécie de “sionismo cristão”, tendo como
meta a Igreja, na reestruturação de uma neocristandade.
3.1. Da Bíblia à Sociedade:
Passagem para o Político
No primeiro caso, a própria Bíblia pode ser ultrapassada
em determinado momento da mobilização popular. Isto acontece
quando são conquistados outros canais de participação
política, levando a Igreja comprometida com a pastoral popular
à perda da hegemonia da contestação popular.
Tal acontece porque o discurso pastoral tende a ser genérico,
privilegiando uma linguagem utópica. Ele encontra sensíveis
dificuldades em fazer a passagem dos princípios éticos para
as propostas políticas concretas. Ele tende a fazer da política
objeto de crença. E isto pode ser reforçado pelas categorias
bíblicas, para dar conta das necessidades da racionalidade política
moderna. Isto pode ser claramente observado no Brasil atual. Daí
a urgência de uma organização política mais
eficaz.
Estas dificuldades, entretanto, poderiam ser enfrentadas
com o uso de instrumentos sócio-analíticos válidos,
tanto na leitura da Bíblia quanto na leitura da realidade social
atual. Enquanto a leitura histórico-crítica ajuda a desvendar
melhor o próprio texto da Bíblia, a mediação
sócio-analítica ajuda a compreender melhor o contexto. Donde
a pertinência de uma abordagem sociológica.
3.2. Da Bíblia à Igreja:
Permanência no Religioso
A outra tendência absolutiza a Bíblia e se torna vítima
das atrações do populismo. Como se dá isso?
Na medida em que a Igreja dá voz e vez ao povo
através da intervenção da consciência crítica
hierarquizada e institucionalizada, ela se legitima em sua prática
pastoral pelo processo de identificação do “povo brasileiro”
com o “povo de Deus”. Esta atitude é semelhante à do populismo
político brasileiro que explora a idéia de unidade nacional
para manter o domínio da burguesia sobre as classes populares.
Os dois jogos se completam e se amparam na relação entre
o político e o religioso.
Esta atitude soteriológica tem suas regras: cada
ato humano, mais ou menos político, pouco importa, é transfigurado
pela leitura teológica que o insere no plano divino global de salvação
do homem. De certo modo, é a Igreja recriando a sociedade brasileira
mediante o filtro teológico.
Roberto Romano vê um jogo hegeliano nesta atitude:
a Igreja sempre se vê como essência desenvolvida e idêntica
a si mesma (instituição de origem divina) exteriorizada
historicamente no outro (o povo).
A sustentação do jogo tem o referencial
simbólico da encarnação: “A Igreja se faz povo, torna-se
povo com o povo, e se recolhe na afirmação universal de
Si como consciência do Homem enquanto ser genérico e absoluto.
Todo este movimento, que se dá na consciência de si da Igreja,
aparece como se fosse produzido pela consciência de si dos homens”[12].
Neste caso, a Bíblia é usada pela hierarquia
como “chave sagrada” para entrar na consciência do povo e lhe dar
a medida da realidade.
As conseqüências políticas de tal atitude
soteriológica são evidentes: moderniza-se a estrutura eclesiástica
para atingir a estrutura social e “salvar” o povo... salvando-se o povo,
salva-se a Igreja... Assim o jogo se inverte e mostra “seu real sentido:
é preciso transformar as estruturas sociais para salvar o povo,
para salvar a Igreja”[13].
Esta tendência aparece hoje com excepcional chance
de ser tornar dominante, na medida em que o processo de restauração
neoconservadora em curso tende a afastar a Igreja dos problemas reais
do povo e a renovar sua tradicional aliança com a burguesia.
Márcio Moreira Alves já apontava, na década
de 70, tais limites da Igreja no Brasil. “A imutabilidade da cadeia de
comando e a estrutura de tomada de decisões eclesiais tornam difícil,
diria mesmo, improvável, o comprometimento do conjunto da instituição
numa luta pela transformação radical das estruturas sociais
do país, ou seja, numa luta pela construção do socialismo.
A estrutura monárquica da Igreja resiste às iniciativas
democráticas, tanto no plano nacional como no internacional”[14].
Márcio acrescentava que, para a Igreja ajudar efetivamente
o regime brasileiro de dominação, ela não precisa
fazer nada ativamente. Basta que repita sua posição clássica
(o que de fato vem acontecendo), já que ela sempre foi um dos elementos
da estrutura conservadora do país.
Conclusão
Gostaria de concluir estas observações com uma reflexão
sobre a palavra, pois Bíblia é, antes de tudo, palavra.
Sabe-se que o termo hebraico dabar significa, ao mesmo tempo,
“palavra” e “acontecimento”. É uma palavra que se realiza no processo
concreto da vida humana: assim é entendida a Palavra que Iahweh
dirige ao povo de Israel. Para o pensamento semita, portanto, a verdade
da palavra está contida no próprio acontecimento e não
fora, acima e antes dele.
Ora, a sociedade capitalista possui enorme habilidade
para transformar discursos instituintes e históricos em discursos
instituídos e competentes[15].
O mecanismo funciona da seguinte maneira: um discurso
que era histórico torna-se instituído e competente, podendo
ser ouvido e aceito como autorizado porque perde os laços com o
lugar e o tempo de sua origem. É o discurso que funciona segundo
a restrição seguinte: “Não é qualquer um que
pode dizer a qualquer outro qualquer coisa em qualquer lugar e em qualquer
circunstância”.
E isto acontece porque a divisão capitalista do
trabalho burocratiza as sociedades contemporâneas e transforma os
discursos por ela autorizados em discursos dissimuladores de suas relações
de dominação.
Este discurso competente e autorizado - o discurso de
mestre - pressupõe a incompetência e a não-autoridade
dos ouvintes, que não são considerados como sujeitos sociais
e políticos. Mas são considerados como sujeitos individuais
e pessoas privadas, revalidando, aparentemente, dessa maneira, a sua competência
social usurpada.
O homem religioso relaciona-se com Deus privadamente,
interiormente, intuitivamente, sentimentalmente. E tem no agente autorizado
o mediador de seu discurso. Claro, o mediador, mestre do discurso, tem
seu lugar aquém da referência do próprio discurso,
lugar inquestionável.
Este é, a meu ver, o risco maior que tocaia a palavra
bíblica hoje.
Artigo publicado em Cadernos do Cearp n.
3 (maio de 1995), Ribeirão Preto, CEARP, pp. 23-36.
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